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Randolfe destaca postura do ‘JB’ em “momentos difíceis da história”

Recortei da matéria somente o que interessa:

O senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) afirmou nesta segunda-feira (16) que a posição de independência nos momentos mais difíceis da história é o que mais o impressiona na trajetória de 120 anos do  Jornal do Brasil.

A mesma postura de independência, de acordo com o senador, se repetiu no Estado Novo (1937-1945) e no regime militar instaurado em 1964. Em 2 de abril daquele ano, enquanto o conjunto dos jornais noticiava a implantação de novo governo no país, o  Jornal do Brasil circulou com a manchete: “Goulart resiste no Sul e Congresso empossa Mazzilli”.

- O jornal destacou que o que estava ocorrendo naquele momento era concretamente um golpe militar e civil. Foi o Jornal do Brasil o único a veicular a verdade naquele 2 de abril de 1964.

Randolfe citou várias outras manchetes do JB em momentos críticos da vida política do país, como a de 14 de dezembro de 1968, um dia depois da edição do Ato Institucional 5 (AI-5), com destaque para a decretação do recesso do Congresso Nacional por tempo ilimitado.

- No cantinho da página estava lá: “Ontem foi o dia dos cegos” – lembrou Randolfe.

Para o senador, em diferentes episódios da vida política nacional, o JB tomou posição clara pela democracia e “não titubeou em relação a isso, nem ocupou a posição cômoda da neutralidade”.

 

Randolfe crê que o povo brasileiro é bobo, que é um povo sem memória. Como ele pode achar que nós esquecemos que o Jornal do Brasil, o Globo, Estado de São Paulo, Folha da Manhã, Correio da Manhã, entre outros apoiaram a ditadura?

O que Randolfe faz é tirar o cabeçalho do contexto, agradando assim o Jornal do Brasil, que sempre adotou postura golpista. O que mais envergonha é que o senador é membro de um partido que se diz de esquerda e socialista, o famoso PSOL, que agora faz oposição se unindo com a direita.

Vejam o editorial do Jornal do Brasil no dia 01 de abril de 1964 e me digam: tem cabimento dizer que o jornal apoia a democracia?

Editorial do jornal Folha de São Paulo em 3 de abril de 1964:

Como se vê, a “folha”, mesmo quando ainda havia ampla articulação pública para confinar o golpe de 1964 na deposição de Jango e retomar o caminho institucional vigente desde a constituição de 1946, o jornal já achava o momento propício a uma ditadura militar.

Isso derruba a tese dos defensores do jornalão, de que teriam apoiado o golpe, defendendo a “democracia” (segundo o jornal, “ameaçada por Jango”), e de que o golpe é que teria tomado rumos diferentes em direção à ditadura.

A gênese da “ditabranda”: escalada de mentiras para enganar a nação, endurecendo o regime passo-a-passo até chegar à ditadura.

Enquanto a ditadura era urdida nos bastidores (o golpe dentro do golpe) após derrubarem Jango, o jornal Folha de São Paulo serviu para preparar o terreno, como se observa no editorial.

O jornalão propagandeava, como se fosse fato, um falso “retorno à normalidade democrática”. A nação era enganada nas páginas dos jornais com a idéia de que tudo não passou de uma crise militar, resolvida politicamente com a derrubada de Jango, e que consumado o fato, tudo estava seguindo a normalidade institucional após estes eventos.

A mentira era evidende, pois como explicar a deposição por militares, de governadores eleitos que não renunciaram, como Miguel Arraes?

Isso reduzia resistências ao golpe, tanto internacionais, como no Congresso, como na sociedade, e permitia que a ditadura fosse se instalando como uma “ditabranda” até chegar a ditadura, com a cumplicidade dos jornais que “amaciava” o noticiário.

O jornalão publicou uma enorme mentira no editorial acima, bajulando os golpistas das Forças Armadas.

No dia 2 (véspera desta edição), o general Costa e Silva havia criado uma aberração alienígena ao próprio papel constitucional das Forças Armadas, ocomando supremo da “revolução”: uma junta militar composta pelo próprio general como homem-forte, o brigadeiro Francisco de Assis Correia de Melo (Aeronáutica), o vice-almirante Augusto Rademaker (Marinha).

Não é preciso mais do que dois neurônios, para entender que os próprios militares golpistas chamavam o golpe de “revolução”, e a palavra “revolução” no contexto de um golpe de estado militar é uma clara ruptura institucional, ao contrário do que o editorial da “folha” levava o leitor a ser enganado.

Também é óbvio que, se a deposição de Jango foi militar e não pelo Congresso, quem era o poder de fato naquele momento era a junta militar. Ao Congresso cabia tentar negociar com a junta militar o que seria “permitido”. Se os militares golpistas depuseram o presidente, poderiam depôr qualquer senador, deputado, governador, como aconteceu de fato.

Mesmo assim, o jornalão, escreveu cinicamente a enorme mentira:

O Brasil pode orgulhar-se de estar livre de ‘pronunciamentos’, de quarteladas, de juntas militares que se instalam no governo e dele não querem mais arredar-se”.

A manobra foi útil para os golpistas alcançarem o poder sem resistência. E o jornalão funcionou como “relações públicas” desse golpe, na escalada rumo a ditadura.

JK e seu partido, o PSD, acabaram negociando apoio para a tomada do poder pelo general Castelo Branco, dando um verniz de restabelecimento da ordem institucional. Os parlamentares acreditavam ser ele mais comprometido com a legalidade constitucional, que apenas completaria o mandato até as próximas eleições. Ledo engano: Castelo Branco foi, inicialmente, o cavalo de tróia para aniquilar resistência dos moderados a um projeto de poder de uma ditadura que duraria 21 anos.

 

Amigos do Presidente Lula

 

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Apresentação: “Surgiu a ideia de criar uma série de postagens intituladas “PIGLEAKS” onde serão copiadas as matérias do PIG que visavam atacar os movimentos sociais, políticas benéficas para a população brasileira e também as que defendiam o golpe cívico-militar.

Contextualização:

Em 13 de Março de 1964, o então presidente da república João Goulart, ou Jango como era conhecido, reuniu na Central do Brasil, Centro do Rio de Janeiro, aproximadamente 150 mil pessoas entre sindicalistas, organizações de trabalhadores, servidores públicos, militares, estudantes, entre outros. Seu interesse era apresentar a decisão do governo federal de implementar reformas que anteriormente foram bloqueadas pelo congresso, como a reforma agrária, bancária, administrativa, universitária e eleitoral. Jango, havia conseguido naquela ocasião a desaprovação e oposição dos setores dominantes do país ao convocar as massas para implementar tais reformas. Essa atitude de Jango, faz com que os seguimentos conservadores da sociedade Brasileira, utilizassem contra ele um discurso anticomunista. Movimentos de mulheres ligadas à Igreja assim como vários seguimentos do clero, foram as ruas em apoio à uma burguesia conservadora, e contra um presidente que se mostrava contra os interesses maiores dos donos de terras, principalmente.

A primeira dessas demonstrações de não aceitação das ideias de Jango, e em defesa da burguesia brasileira, aconteceu no dia 19 de março de 1964, em São Paulo, dia de São José, padroeiro da Família. Ela levou às ruas 500 mil pessoas. Em 2 de abril, a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, agora denominada “Marcha da Vitória”, levou às ruas do Rio de Janeiro um milhão de pessoas, que receberam os militares do “Golpe de 64″ de braços abertos, como a proteção da família… Ou seria de seus bens, da “ameaça” vermelha, o comunismo.

 

No Jornal do Brasil, no dia primeiro de abril de 1964, saiu a convocação daMarcha da Família com Deus pela Liberdade:

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Apresentação: “Surgiu a ideia de criar uma série de postagens intituladas “PIGLEAKS” onde serão copiadas as matérias do PIG que visavam atacar os movimentos sociais, políticas benéficas para a população brasileira e também as que defendiam o golpe cívico-militar.

No dia 02 de abril, O Globo surge com este editorial:

 

“Ressurge a Democracia”

Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem. Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas, que obedientes a seus chefes demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina, o Brasil livrou-se do Governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições.Como dizíamos, no editorial de anteontem, a legalidade não poderia ser a garantia da subversão, a escora dos agitadores, o anteparo da desordem. Em nome da legalidade, não seria legítimo admitir o assassínio das instituições, como se vinha fazendo, diante da Nação horrorizada.

Agora, o Congresso dará o remédio constitucional à situação existente, para que o País continue sua marcha em direção a seu grande destino, sem que os direitos individuais sejam afetados, sem que as liberdades públicas desapareçam, sem que o poder do Estado volte a ser usado em favor da desordem, da indisciplina e de tudo aquilo que nos estava a levar à anarquia e ao comunismo.

Poderemos, desde hoje, encarar o futuro confiantemente, certos, enfim, de que todos os nossos problemas terão soluções, pois os negócios públicos não mais serão geridos com má-fé, demagogia e insensatez.

Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares, que os protegeram de seus inimigos. Devemos felicitar-nos porque as Forças Armadas, fiéis ao dispositivo constitucional que as obriga a defender a Pátria e a garantir os poderes constitucionais, a lei e a ordem, não confundiram a sua relevante missão com a servil obediência ao Chefe de apenas um daqueles poderes, o Executivo.

As Forças Armadas, diz o Art. 176 da Carta Magna, “são instituições permanentes, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade do Presidente da República E DENTRO DOS LIMITES DA LEI.”

No momento em que o Sr. João Goulart ignorou a hierarquia e desprezou a disciplina de um dos ramos das Forças Armadas, a Marinha de Guerra, saiu dos limites da lei, perdendo, conseqüentemente, o direito a ser considerado como um símbolo da legalidade, assim como as condições indispensáveis à Chefia da Nação e ao Comando das corporações militares. Sua presença e suas palavras na reunião realizada no Automóvel Clube, vincularam-no, definitivamente, aos adversários da democracia e da lei.

Atendendo aos anseios nacionais, de paz, tranqüilidade e progresso, impossibilitados, nos últimos tempos, pela ação subversiva orientada pelo Palácio do Planalto, as Forças Armadas chamaram a si a tarefa de restaurar a Nação na integridade de seus direitos, livrando-os do amargo fim que lhe estava reservado pelos vermelhos que haviam envolvido o Executivo Federal.

Este não foi um movimento partidário. Dele participaram todos os setores conscientes da vida política brasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais. Aliaram-se os mais ilustres líderes políticos, os mais respeitados Governadores, com o mesmo intuito redentor que animou as Forças Armadas. Era a sorte da democracia no Brasil que estava em jogo.

A esses líderes civis devemos, igualmente, externar a gratidão de nosso povo. Mas, por isto que nacional, na mais ampla acepção da palavra, o movimento vitorioso não pertence a ninguém. É da Pátria, do Povo e do Regime. Não foi contra qualquer reivindicação popular, contra qualquer idéia que, enquadrada dentro dos princípios constitucionais, objetive o bem do povo e o progresso do País.

Se os banidos, para intrigarem os brasileiros com seus líderes e com os chefes militares, afirmarem o contrário, estarão mentindo, estarão, como sempre, procurando engodar as massas trabalhadoras, que não lhes devem dar ouvidos. Confiamos em que o Congresso votará, rapidamente, as medidas reclamadas para que se inicie no Brasil uma época de justiça e harmonia social. Mais uma vez, o povo brasileiro foi socorrido pela Providência Divina, que lhe permitiu superar a grave crise, sem maiores sofrimentos e luto. Sejamos dignos de tão grande favor.”

 

Conversa Afiada

 

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Amanhã é um dia de lamentação, dia em que a jovem democracia brasileira foi golpeada. E não se enganem, como a direita deseja, não foi um contra-golpe. Pretendo nesse post resgatar um pouco da história do Golpe.

Andei lendo o livro “A Esquerda e o Golpe de 64″, de Dênis de Moraes e resolvi retirar trechos de entrevistas que o autor realizou com membros importantes da esquerda dos anos 60, que estavam diretamente ligados à toda convulsão social da época. Estes trechos falam sobre a influência dos EUA na conspiração do golpe militar.

Obs.: As entrevistas foram realizadas nos anos 80

São os entrevistados que comentam sobre os EUA: Brigadeiro Francisco Teixeira, Raul Ryff, Darcy Ribeiro e Leonel Brizola.

Brigadeiro Francisco Teixeira

Pergunta: O golpe o surpreendeu militarmente?

Brigadeiro Teixeira – Não, O golpe em si, naquele dado momento, surpreendeu, embora se soubesse que havia uma grande conspiração na área contrária ao governo, inclusive na área militar. Isso apesar de sentirmos que as posições políticas do governo vinham sofrendo perda de posição.

Apesar do desgaste que vinha sofrendo o governo, se o Presidente Goulart decidisse resistir, contra-atacar – e ele dispunha de tropas aqui no Rio para ocupar o Palácio Guanabara, onde estava o Lacerda conspirando -, talvez tivesse ganho aquela parada. Ou, pelo menos, estabelecido uma luta mais prolongada. Mas ele resolveu não resistir.

A meu ver, foi uma decisão até acertada, porque evitou derramamento de sangue. Hoje, depois dessas informações liberadas pelos americanos, a gente vê o envolvimento que tinha o governo americano no golpe militar que estava se processando no Brasil.

Raul Ryff

Pergunta: Faltou um sistema de informações mais seguro para impedir a marcha do golpe?

Ryff - Não. Nós sabíamos que o golpe estava em marcha, não havia dúvida. O Renato Archer me contou uma vez que Osório de Almeida, Encarregado de Negócios da Embaixada do Brasil nos Estados Unidos, trouxe documentos circunstanciados sobre a conspiração, mostrou-os ao Jango e ele não se surpreendeu, pois estava informado sobre isso.

Pergunta: O que o Presidente poderia ter feito para conter a escalada golpista?

Ryff: Do ponto de vista militar, era muito difícil. A questão passou de um problema nacional para a escala internacional, com interesses imediatos dos EUA.

Darcy Ribeiro

Pergunta: O senhor costuma dizer que há coisas que não foram feitas em 64 e que deveriam ter sido feitas. Quais por exemplo?

Darcy - É difícil dar um exemplo assim. Seriam múltiplos exemplos. O Presidente João Goulart decidiu tomar uma atitude de tentar conquistar, por meios persuasórios, as transformações capitais. Conseguiu, o que parecia impossível, que o Congresso Nacional votasse a lei de remessa de lucros. Foi essa lei que provocou a intervenção norte-americana. Ou seja: creio que as reformas que nós estávamos fazendo teriam sido executadas se não fosse a intervenção norte-americana.

De fato, não foram forças nativas, locais, que desestabilizaram e derrubaram o governo. Foi um complô internacional, conduzido aqui dentro com enorme eficácia. Um complô cujos personagens ainda estão aí – o General Vernon Walters de vez enquando vem aí. O partido norte-americano que tem aqui dentro é muito ativo e poderoso.

Pergunta: Era difícil a articulação com o movimento progressista em torno das reformas?

Darcy – Em junho de 64, Salvador Allende nos visitou no Uruguai. Era Senador no Chile. Eu me lembro de que cheguei a um encontro dele com o Jango com um jornal aqui do Rio – se não me engano, o Correio da Manhã -  e mostrei uma declaração do Embaixador americano, dizendo que o golpe no Brasil – que ele chamava de revolução – era mais importante do que a crise do muro de Berlim e do que a crise de Cuba em 1962. O Jango comentou: “Ele é um imbecil”. O Allende disse ao Jango: “Não, talvez ele tenha razão. Depois de sua queda, é que eu caí em mim. Com o seu governo lá nós podíamos libertar a América Latina. Sem o seu governo é muito mais difícil.”

Pergunta: O esquema militar não funcionava?

Darcy - O dispositivo militar seria bom para fazer o que Jango pretendia: tentar a coisa poersuasória, mas não ousar. A direita entrou com a disposição de fazer uma guerra civil, de fazer um Vietnam no Brasil. Ora, os Estados Unidos mandavam uma frota que iria desembarcar em Vitória e invadir o país em 400, 500 quilômetros, até Belo Horizonte, para levar mantimentos, armas e combustível. Os norte-americanos aceitaram o Vietnam aqui, tal era a gravidade que atribuíam a uma política brasileira de controle do capital estrangeiro. A direita aceitou a guerra ivil; se o governo tivesse aceito também, a coisa seria diferente. Agora, é evidente que o esquema de Jango fracassou.

Pergunta: Se o senhor pudesse entrar no túnel do tempo, o que não faria na crise de 64:

Darcy - A primeira coisa é que eu não tinha a noção clara de que eu estava jogando com a hegemonia americana no mundo. Eu não fazia ideia de que a América do norte fosse tão importante. para mim, nós estavamos tratando de uma questão nacional, interna, indispensável para o povo brasileiro progredir.

Eu só vi o golpe em marcha até o ponto em que o Jango me disse, por informação dada pelo San Tiago Dantas, de que havia uma frota americana se aproximando da Baía de Guanabara, que entraria aqui se o Lacerda fosse atacado. O sinal para entrar era esse. E eu disse: “É mentira, não tem frota”. Não tinha aqui, mas tinha em Vitória! Eu não imaginava que aquilo que estávamos fazendo fosse tão importante. E de fato era. No momento em que o Brasil se tornar autônomo, realizar suas potencialidades, com um projeto próprio, A América Latina toda se libertará da dominação norte-americana.

 

Leonel Brizola

Pergunta: Sobre a conspiração contra Jango, já no período presidencialista:

Brizola - O golpismo passou a agir abertamente. A conspiração se generalizou, procurando criar um clima que tornasse o país ingovernável pelo Presidente Goulart. Isso se refletiu, inclusive, em áreas que estavam unidas em torno do governo. Surgiram divergências sobre como nos conduzir naquele quadro. Havia interferências claras de forças internacionais, especialmente da Embaixada americana, subsidiando áreas de contestação ao governo. Enfim, era a montagem de todo um processo de desestabilização, atendendo a interesses internacionais, sob a coordenação de  um organismo que existia no Rio de Janeiro, o IPES. Funcionava muito discretamente para se fazer passar pelo que jamais foi: um instituto de estudos econômicos e sociais. No fundo, era um centro de articulação do golpe, visando à implantação de um regime especial no Brasil.

Apresentação:

“Surgiu a ideia de criar uma série de postagens intituladas “PIGLEAKS” onde serão copiadas as matérias do Partido da Imprensa Golpista que visam atacar os movimentos sociais, políticas benéficas para a população brasileira e também as antigas matérias que defendiam o golpe cívico-militar.

O resumo do livro “A esquerda e o golpe de 64, de Dênis de Moraes” sobre a mídia :

Com poucas exceções, os veículos de comunicação funcionavam como correias de transmissão da máquina de propaganda ideológica anticomunista e antijanguista. Isto é, ao apresentarem o real social, atuavam nos conflitos e tomavam partido claramente. Realizavam, assim o que Muniz Sodré chama de “duplicação da História”: no real histórico, os “mass media” recolhem a matéria-prima (o fato) que, reprocessada sob a forma de notícia, vai tecer um real próprio, específico do código informativo e capaz de gerar efeitos de poder.

O jogo ideológico no discurso dos “media” se processa através da emissão de mensagens que apresentam alguns aspectos da realidade em detrimento de outros, levando à eliminação ou ao obscurecimento de fatos.

O Jornal do Brasil, para quem viveu a época, sabe que sempre apoiou a ditadura militar e foi um dos braços midiáticos que atacava diariamente o governo do presidente João Goulart. Possuía a linha reacionária igual ao jornal O Globo e Estadão.

Segue abaixo o editorial intitulado “Fora da Lei” do Jornal do Brasil no dia que foi dado o golpe, ou seja, dia 1 de abril de 1964. Mas não se enganem, eles tratam como fora da lei o governo Jango e não o Golpe Cívico-Militar, estranho?

Twitter: @Porra_Serra_

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Este é o WikiLeaks do golpe de 1964, que devemos ao The National Security Archive. Tradução de telegrama de 27.03.1964, do então embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Lincoln Gordon, a superiores em Washington:

TOP SECRET

Pessoal do embaixador Gordon. Favor passar imediatamente para o secretário de Estado Rusk, o secretário-assistente Mann, Ralph Burton, secretário de Defesa McNamara, secretário-assistente de Defesa McNaughton, general Maxwell Taylor, diretor da CIA John McCone, coronel J.C. King, Desmond Fitzgerald, na Casa Branca para Bundy e Dungan, passar na zona do Canal (onde ficava o Comando Militar Sul dos Estados Unidos) ao general O’Meara. Outra distribuição só com aprovação dos acima citados.

1. Desde que retornei ao Rio em 22 de março eu tenho estudado a situação brasileira profundamente com assessores civis e militares daqui, convocando os chefes de missão em São Paulo e Brasília para ajudar e fazendo alguns contatos com brasileiros bem informados.

2. Minha conclusão é de que Goulart está definitivamente engajado em uma campanha para assumir poderes ditatoriais, aceitando a colaboração do Partido Comunista Brasileiro e outros grupos revolucionários da esquerda para esse fim. Se ele for bem sucedido é mais do que provável que o Brasil caia sob controle completo dos comunistas, ainda que Goulart possa ter a esperança de se voltar contra os apoiadores comunistas e adotar um modelo peronista, o que pessoalmente acredito que ele prefere.

3. As táticas imediatas da guarda palaciana de Goulart estão concentradas em pressões para garantir no Congresso reformas constitucionais inalcançáveis por meios normais, usando uma combinação de manifestações nas ruas, ameaças de greve ou greve, violência rural esporádica e abuso do enorme poder financeiro discricionário do governo federal. Isso vem junto com uma série de decretos executivos populistas, de legalidade qüestionável, e uma inspirada campanha de rumores sobre outros decretos, calculada para amedrontar elementos da resistência. Especialmente importante nessa conexão é a habilidade do presidente de enfraquecer a resistência no nível estadual ao segurar financiamento federal essencial. O governo também tem submetido emissoras de rádio e TV à censura parcial, aumentado o uso da agência de notícias nacional e requisitado tempo para transmitir propaganda reformista, fazendo ameaças veladas contra a imprensa de oposição. O propósito não é só de assegurar reformas econômicas e sociais construtivas, mas desacreditar a atual Constituição e o Congresso, assentando as bases para um golpe de cima para baixo que pode ser ratificado por um plebiscito fraudado e a reescrita da Constituição por uma Assembléia Constituinte fraudada.

4. Eu não descarto inteiramente a hipótese de que Goulart seja amedrontado a desistir dessa campanha e que termine normalmente seu mandato (até 31 de janeiro de 1966), com eleições presidenciais sendo realizadas em outubro de 1965. Essa seria a melhor saída para o Brasil e para os Estados Unidos, se acontecer. Os compromissos de Goulart com a esquerda revolucionária são agora tão profundos, no entanto, que as chances de alcançar esse resultado através da normalidade constitucional parecem ser de menos de 50%. Ele pode fazer recuos táticos para tranquilizar a oposição novamente, como fez no passado. Há alguns sinais de que isso aconteceu nos últimos dias, como resultado da maciça manifestação da oposição nas ruas de São Paulo no dia 19 de março, a hostilidade declarada de governadores de estados importantes e ameaças e descontentamento de oficiais, especialmente do Exército. Mas a experiência passada mostra que cada recuo tático permite ganho considerável de espaço e o próximo avanço vai além do anterior. Com o tempo do mandato acabando e os candidatos à sucessão entrando ativamente em campo, Goulart está sob pressão para agir mais rapidamente e com menor cálculo dos riscos. O desgoverno também acelera a taxa de inflação a ponto de ameaçar a quebra da economia e a desordem social. Um salto desesperado por poder ditatorial pode acontecer a qualquer momento.

5. O movimento Goulart, incluindo seus afiliados comunistas, representa a minoria – não mais de 15 a 20 por cento do povo ou do Congresso. Sistematicamente assumiu o controle de muitos pontos estatégicos, notavelmente na Petrobras (que sob um decreto de 13 de março agora assumirá as cinco últimas refinarias privadas ainda não sob seu controle), no Departamento de Correios e Telégrafos, na liderança de sindicatos do petróleo, das rodovias, dos portos, da marinha mercante, das recém-formadas associações de trabalhadores rurais e de algumas outras indústrias-chave, a Casa Civil e Militar da Presidência, unidades importantes dos ministérios da Justiça e Educação e elementos de muitas outras agências de governo. Nas Forças Armadas, há um grande número de oficiais esquerdistas que receberam privilégicos e posições-chave de Goulart, mas a grande maioria é de legalistas e anti-comunistas e há um antigo grupo de apoiadores de um golpe na direita. A esquerda tem tentado enfraquecer as Forças Armadas através da organização subversiva de oficiais da reserva e de pessoal alistado, com resultados significativos especialmente na Força Aérea e na Marinha.

6. No dia 21 de março eu tive uma conversa com o secretário (de Estado) Rusk para avaliar a força e o espírito das forças de resistência e as circunstâncias que podem causar violência interna e um confronto. Acredito que desde o comício de Goulart com os sindicalistas no Rio, em 13 de março (o comício da Central do Brasil) houve uma polarização de atitudes, com apoio à Constituição e ao Congresso, para reformas apenas dentro da Constituição e a rejeição do comunismo, que vem de um grupo de governadores: Lacerda da Guanabara, Adhemar de Barros de São Paulo, Meneghetti do Rio Grande do Sul, Braga do Paraná e, para minha surpresa, Magalhães Pinto, de Minas Gerais. Eles foram fortalecidos pela clara declaração do ex-presidente marechal Dutra e pelo discurso de Kubistchek em sua indicação como candidato (à presidência). O grande comício pró-democracia em São Paulo, no dia 19 de março, organizado principalmente por movimentos de mulheres, deu um importante elemento de demonstração de massa pública, com reações favoráveis no Congresso e nas Forças Armadas.

7. Existe uma interdependência recíproca de ação entre o Congresso e as Forças Armadas. A resistência do Congresso a ações ilegais do Executivo e às exigências abusivas para mudança constitucional do presidente depende da convicção dos congressistas de que eles terão cobertura dos militares se assumirem posição. A tradição legalista das Forças Armadas é tão forte que elas desejariam, se possível, cobertura do Congresso para qualquer ação contra Goulart. A ação do Congresso é uma chave importantíssima da situação.

8. Enquanto uma clara maioria do Congresso desconfia das propostas de Goulart e despreza a sua evidente incompetência, o consenso presente dos líderes congressistas anti-Goulart é de que a maioria absoluta da Câmara dos Deputados não será obtida para um impeachment. Eles também se opõem à mudança do Congresso de Brasília acreditando que isso diminui o prestígio já abalado, embora mantenham aberta a possibilidade de um recuo dramático para São Paulo ou outro lugar como último recurso no caso de se aproximar uma guerra civil ou de uma guerra civil em andamento. Eles agora focam a aprovação de algumas reformas amenas como forma de enfrentar a campanha de Goulart contra o Congresso e avaliam outras maneiras de mostrar resistência ativa. Há pequena possibilidade de aprovação de uma lei de plebiscito, delegação de poderes (ao presidente), legalização do Partido Comunista, direito de voto para os analfabetos ou outras mudanças buscadas por Goulart.

9. De toda forma, a mudança mais significativa é a cristalização de um grupo de resistência militar sob a liderança do general Humberto Castello Branco, chefe de estado-maior do Exército. Castello Branco é um oficial altamente competente, discreto, honesto e respeitado, que tem forte lealdade aos princípios legais e constitucionais e até recentemente evitava qualquer aproximação com conspiradores anti-Goulart. Ele se associou com um grupo de outros oficiais bem colocados e está assumindo agora o controle e a direção sistemática de uma ampla mas ainda descentralizada organização de resistência de grupos militares e civis em todas as partes do país.

10. A preferência de Castello Branco seria de agir somente em caso de provocação inconstitucional óbvia, isso é, uma tentativa de Goulart de fechar o Congresso ou intervenção em um dos estados da oposição (Guanabara ou São Paulo sendo os mais prováveis). Ele reconhece, no entanto (e eu também) que Goulart pode evitar uma provocação óbvia, enquanto continua a se mover em direção a um fait accompli irreversível através de greves manipuladas, enfraquecimento financeiro de estados ou um plebiscito – incluindo voto para os analfabetos – para dar apoio a um tipo de poder bonapartista ou gaulista. Castello Branco está se preparando, portanto, para um possível movimento no caso de uma greve geral comandada pelos comunistas, outra rebelião dos sargentos, a convocação de um plebiscito que enfrente oposição do Congresso ou mesmo alguma grande medida governamental contra líderes democráticos militares ou civis. Neste caso, a cobertura política deve vir em primeira instância de um grupo de governadores, declarando-se o legítimo governo do Brasil, com apoio do Congresso em seguida (se o Congresso ainda puder agir). Também é possível que Goulart renuncie sob pressão de sólida oposição militar, ou para “fugir” do país ou para liderar um movimento “populista” revolucionário. As possibilidades claramente incluem guerra civil, com alguma divisão horizontal ou vertical nas Forças Armadas, agravadas pela posse disseminada de armas nas mãos de civis dos dois lados.

11. Ao contrário dos vários grupos anti-Goulart que nos procuraram durante os últimos dois anos e meio, o movimento de Castelo Branco demonstra a perspectiva de apoio amplo e liderança competente. Se nossa influência for usada para evitar um grande desastre aqui – o que pode transformar o Brasil na China dos anos 60 – nesse grupo é que tanto eu quanto meus assessores acreditamos que nosso apoio deve ser colocado (os secretários Rusk e Mann devem notar que Alberto Byington* está trabalhando com esse grupo). Nós temos essa visão mesmo que Castello Branco seja afastado de sua posição no Exército.

* Alberto Byington era um industrial paulista que ajudou a articular o golpe

12. Apesar de sua força entre os oficiais, o grupo de resistência está preocupado com as armas e a possível sabotagem do abastecimento de combustível. Dentro da próxima semana vamos avaliar as estimativas das armas necessárias através de um contato com o general Cintra*, o braço direito do Castello Branco. As necessidades de combustível incluem combustível para a Marinha, que agora está sendo buscado por Byington, além de gasolina para motores e para a aviação.

* General Ulhoa Cintra

13. Dada a absoluta incerteza quanto ao timing de um possível incidente-gatilho (que poderia ocorrer amanhã ou a qualquer momento), recomendamos (a) que sejam tomadas medidas o mais rapidamente possível para preparar uma entrega clandestina de armas que não sejam de origem americana a apoiadores de Castello Branco em São Paulo, assim que as necessidades sejam definidas e os arranjos feitos. A melhor possibilidade de entrega parece ser em um submarino sem identificação a ser descarregado à noite em algum ponto isolado da costa do estado de São Paulo, ao sul de Santos, provavelmente perto ou em Iguape ou Gananeia (Cananéia); (b) isso deveria ser acompanhado por combustível (a granel, embalado ou ambos), também evitando a identificação do governo dos Estados Unidos, com entrega que espere o início ativo de hostilidades. A ação (DEPTEL 1281*) deve proceder.

*Telegrama enviado à Embaixada desde Washington: “Defesa (o Departamento de) providenciou a lista dos materiais solicitados e outras informações sobre o navio-tanque de petróleo discutidas com você. Urgentemente esperando sua avaliação da situação para dar os passos seguintes nesta ação e definir próximos passos vis-à-vis Brasil.”

14. O atendimento às sugestões acima pode ser suficiente para assegurar a vitória de forças amigáveis sem qualquer participação aberta, logística ou militar, dos Estados Unidos, especialmente se politicamente nossa intenção é dar reconhecimento imediato ao novo governo do Brasil. Deveríamos nos preparar sem demora para a contingência de uma intervenção aberta em um segundo estágio e também contra a possibilidade de ação soviética para apoiar o lado dos comunistas. Para minimizar as possibilidades de uma guerra civil prolongada e assegurar a adesão de um grande número de “band-wagon jumpers” (os que ficam em cima do muro), nossa habilidade em demonstrar compromisso e algum tipo de demonstração de força com grande rapidez pode ser crucial. Com esse objetivo e conforme nossas conversas em Washington, no dia 21 de março, uma possibilidade parece ser o envio de uma força-tarefa naval para manobras no Atlântico Sul, a poucos dias de distância de Santos. A logística deve seguir as especificações do South Brazil Contingency Plan (USSCJTFP-BRAZIL*), revisado aqui em 9 de março. Um porta-aviões seria muito importante pelo efeito psicológico. O contingente de fuzileiros navais poderia cumprir tarefas de performance logística definidas no South Plan. Instruções são aguardadas nesse ou em métodos alternativos, desde que com os objetivos acima mencionados.

* Planos de contingência militar que o Pentágono mantém em relação a todas as regiões do mundo, que passam por revisões constantes

15. Nós reconhecemos o problema de incerteza quanto ao período da necessidade dessas forças na área. Com crises quase diárias de intensidade variável aqui, no entanto, e a violência a ponto de se tornar epidêmica através de invasões de terra, confrontos entre grupos comunistas e democráticos nas ruas e com o crescendo das ações de Goulart com o objetivo de “atingir as reformas-de-base” até 24 de agosto (décimo aniversário do suicídio de Vargas), perigo real existe da irupção de guerra civil a qualquer momento. O único sinal convincente (em contrário) seria uma limpeza dos extremistas da guarda civil e militar do grupo palaciano. O episódio atual dos marinheiros rebeldes demonstra a fragilidade da situação e possível iminência de um confronto.

16. Estamos, enquanto isso, tomando medidas complementares com nossos recursos para fortalecer as forças da resistência. Isso inclui apoio clandestino a manifestações de rua pró-democracia (o próximo grande evento será no dia 2 de abril, no Rio, com outros ainda sendo programados), a difusão discreta de que o governo dos Estados Unidos está profundamente preocupado com os acontecimentos e o encorajamento de sentimento democrático e anti-comunista no Congresso, nas Forças Armadas, grupos amigáveis de estudantes e sindicalistas, igreja e empresas. Poderemos requisitar modestos fundos suplementares para outros projetos de ações clandestinas em futuro próximo.

17. Também acredito que seria útil, sem entrar em detalhes, uma resposta em entrevista coletiva do secretário de Estado ou do presidente indicando preocupação com informações sobre a deterioração econômica e a inquietude política no Brasil e a importância para o futuro do Hemisfério de que o Brasil, comprometido com suas raízes democráticas e tradições constitucionais, vai continuar seu progresso social e econômico sob a democracia representativa. Recomendamos que isso seja feito nos próximos dias.

18. Essa mensagem não é alarmista ou reação apavorada a um único incidente. Reflete as conclusões conjuntas da equipe da embaixada baseadas em uma longa corrente de ações e informação de inteligência que nos convenceram de que existe um perigo real e presente para a democracia e a liberdade no Brasil, que poderia conduzir esta nação enorme ao campo comunista. Se este fosse um país de menos importância estratégica para os Estados Unidos – tanto diretamente quanto no impacto que tem na América Latina – poderíamos sugerir um período de acompanhamento esperando que a resistência brasileira, sem ajuda, cuidasse do problema. Nós acreditamos que há uma grande possibilidade de que ela consiga fazer isso, dados os sentimentos básicos e as atitudes da maioria das pessoas e a força da democracia organizada, especialmente na metade Sul do país. O poder de Goulart e da presidência de enfraquecer e abalar a resistência é tão grande, no entanto, que nosso apoio manifesto, tanto moral quanto material e até a um custo substancial, pode ser essencial para manter a coluna da resistência brasileira. Não podemos perder tempo nos preparativos para tal ação. A alternativa de arriscar um Brasil comunista parece inaceitável, causando custos potencialmente muito maiores tanto em dinheiro quanto em vidas.”

Este e outros documentos em inglês sobre o golpe de 1964 estão aqui.

 

Viomundo