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Comemorar muito, mas de sandálias.

Nossa avaliação das eleições presidenciais de 2010 deve começar sempre com
uma tripla comemoração e com um forte agradecimento.
Comemoração pela continuidade do processo de mudanças iniciado em janeiro
de 2003, pela eleição da primeira mulher presidente da República
e por termos derrotado mais uma vez a direita demotucana.

Valter Pomar*

Agradecimento ao povo de esquerda, especialmente ao povo petista, milhões
de brasileiros e brasileiras, alguns anônimos, outros nem tanto, que perceberam
o perigo e foram à luta, sem pedir licença, sem pedir ordem, sem pedir
autorização e sem precisar de orientação.

Foi principalmente este povo que ganhou a eleição presidencial, e não
governantes, candidatos, dirigentes, coordenadores ou marqueteiros.

Devemos agradecer e comemorar, mas sem descuidar de um balanço crítico e
autocrítico do processo.

Este balanço deve começar lembrando que vencemos com uma bandeira: dar
continuidade à mudança. Como lembrou a própria Dilma, como recebemos uma
“herança bendita”, nossa única alternativa é aprofundar as transformações.

Ocorre que para vencer, enfatizamos a continuidade e debatemos pouco as
mudanças. O tratamento dado ao programa do Partido e ao programa do coligação é
apenas mais um sintoma disto.

Debatemos pouco as mudanças, mas o cenário do governo Dilma será muito
diferente do que prevaleceu entre 2003 e 2010.

Noutras palavras: a mudança na realidade já está acontecendo, embora não
tenhamos debatido em profundidade as mudanças que teremos que fazer na nossa
política, para enfrentar esta nova realidade.

As mudanças já se deram e continuarão ocorrendo em três níveis principais.

Internacionalmente, o cenário será dominado não apenas pela crise e
instabilidade econômica, mas também por cada vez maior instabilidade política e
militar.

Nacionalmente, a direita vai dar continuidade ao tom radical assumido na
campanha eleitoral.

Ao contrário do que alguns pensavam, o PSDB é o partido de direita e da
direita. Demonstrando uma vez mais a periculosidade da proposta da “aliança
estratégica” com o PSDB, feita entre outros por Fernando Pimentel, com os
resultados já conhecidos em Minas Gerais.

A terceira mudança é a seguinte: nos marcos da atual estrutura tributária
e macroeconômica, não será mais possível ampliar significativamente os
investimentos econômicos e sociais.

Ou reduzimos substancialmente os juros, ou fazemos algum tipo de reforma
tributária, ou interrompemos o crescimento dos investimentos, ou…. Em qualquer
caso, tudo aponta para a agudização do conflito redistributivo no país, seja
tributário, salarial, seja pela alta nos preços, pela alta dos juros etc.

Para dar conta destas mudanças, que conformam um novo cenário, teremos que
enfrentar e superar três impasses estratégicos.

Primeiro: a política de melhorar a vida dos pobres, sem tocar na riqueza
dos milionários, reforça o preconceito de uma parcela dos setores médios contra
nós. Pois na prática estes setores perdem, em relação aos pobres, especialmente
em termos de status.

Segundo: melhorar a vida material dos pobres, sem melhorar em grau
equivalente a sua cultura política, deixa uma parcela dos que melhoraram de vida
sujeitos à influência das igrejas conservadoras e do Vaticano, dos meios de
comunicação monopolistas e da educação tradicional.

Aqui vale ressaltar que a disputa de valores faz parte da disputa
política. Não percebe isto quem acha que fazer política é “administrar”,
esquecendo que a “percepção das obras” é mediada pela ideologia, pela visão de
mundo, pela luta política.

Terceiro: o PT ganhou sua terceira eleição presidencial, mas ao mesmo
tempo enfrenta cada vez mais dificuldades para hegemonizar o processo.

Estas dificuldades ficam claras quando analisamos o papel do PT na
campanha, na composição do novo governo, na relação com aliados, na relação
direta e cotidiana com o povo etc.

Quais são as principais dificuldades do PT?

Primeiro, a terceirização de parte de suas atividades dirigentes, seja
para a bancada, seja para o governo, seja para o Lula. Há uma crescente
distância entre a influência moral e eleitoral do PT, vis a vis a capacidade
efetiva de direção de nossas instâncias.

Segundo, o empobrecimento de nossa elaboração ideológica, programática e
estratégica. É preocupante o descompasso cada vez maior, entre a complexidade
das questões postas diante de nós, no mundo, na América Latina e no Brasil, vis
a vis nossa capacide de refletir coletivamente sobre estes assuntos.

Terceiro, há um processo de “normalização” do PT, de integração ao
establishment. Durante muitos anos, o PT cumpriu um papel civilizatório na
política brasileira. Pouco a pouco, por diversos motivos, entre os quais o
financiamento privado das campanhas eleitorais, fomos nos adaptando a certos
hábitos e costumes da política brasileira, dos mais ridículos aos mais graves,
entre os quais tratar a eleição como mercado de votos.

Ou reagimos a isto e voltamos a cumprir –como Partido– um papel
civilizatório, reformador e em alguma medida revolucionário nas práticas e
costumes da política, ou estaremos fazendo o jogo da direita e da mídia que dia
e noite nos calunia.

O que falamos antes ajuda a explicar alguns dos motivos pelos quais uma
parcela importante da juventude não se identifica mais conosco. Grandes parcelas
da juventude podem ser ganhas por nós, se adotarmos práticas distintas,
combinadas com projeto de futuro, ideologia, visão de mundo, programa
transformador. Se não fizermos isto, teremos inclusive problemas eleitorais,
pois na próxima eleição e na outra, não adiantará comparar nosso governo com o
passado, pois para os mais jovens, nós também fazemos parte do passado.

Aqui vale destacar que nossa integração ao establishment não se dá como
decorrência automática de nossa conversão em partido de governo. Aliás,
ironicamente, as vezes nossos governos são o que há de mais inovador e atraente;
enquanto nossas instâncias partidárias vão se transformando em “agências
reguladoras” de nossa participação nos processos eleitorais, burocratizadas, sem
vida, controladas por esquemas cada vez mais tradicionais.

A quarta dificuldade que enfrentamos está em nossa relação com os aliados.

Precisamos de aliados para vencer eleições e para governar. Mas, nas
atuais regras do jogo, a mesma política de alianças que parece cumprir um papel
positivo na nossa vitória nacional, não parece contribuir para um salto no
tamanho de nossas bancadas parlamentares e no número de nossos governos
estaduais. Isto, mantidas as atuais regras do jogo, nos condena a um teto, a um
limite de crescimento. E, sem maioria de esquerda no Congresso, qualquer
discussão sobre reformas profundas pela via institucional será apenas isso:
discussão.

A este problema, cabe agregar um detalhe: apesar de nossa política de
alianças, o antipetismo cresce entre os aliados, assim como cresce na sociedade.

Em decorrência das mudanças, impasses e dificuldades que citamos antes,
entendemos que a direção nacional deve priorizar o debate sobre a estratégia e a
tática do Partido, da qual decorre a política que defendemos para o conjunto do
governo, da qual podemos deduzir os espaços que achamos devam ser dirigidos pelo
PT. E não, como parecem pretender alguns, começar e terminar o debate pelos tais
“espaços”.

Na nossa opinião, o Partido deve priorizar quatro temas em 2011: a reforma
política, a democratização da comunicação, a reforma tributária e a
reorganização do PT.

Em resumo: com a eleição e posse de Dilma, a mudança continua, mas a
disputa também.

Continua a nossa disputa contra o neoliberalismo, que não está morto, como
se depreende do lobby do setor financeiro em favor de Meirelles, de Palocci, do
ajuste fiscal e da alta de juros, para não falar do que ocorre no G20, na Europa
e nos EUA.

Continua a nossa disputa contra o desenvolvimentismo conservador, aquele
no qual as empresas capitalistas crescem, sem que haja mudanças estruturais na
distribuição de poder, renda e riqueza.

E continua a disputa deles contra o PT. Disputa que vamos vencer, se
abandonarmos as ilusões no inimigo, a defensividade absoluta e certo medo de
sustentar nossas posições históricas e corretas, por exemplo em favor da
democratização da comunicação.

A disputa contra o PT é uma disputa em torno do conteúdo da mudança que
está em curso no Brasil. É uma disputa de hegemonia. E disputar hegemonia não é
igual a fazer concessão, não é igual a ceder ou a recuar sempre. Disputar
hegemonia é o contrário disto. Disputar hegemonia é travar uma luta cotidiana e
permanente em defesa dos nossos valores, da nossa visão, do nosso projeto de
mundo e de Brasil.

*Valter Pomar é membro do Diretório Nacional do PT
Texto baseado na intervenção feita na reunião do Diretório Nacional do PT,
dia 19 de novembro de 2010