Do sensacional blog Curso Básico de Jornalismo Manipulativo
Chegou ao nosso conhecimento que vários de nossos ex-alunos gostariam de aprender o novo idioma jornalístico que se tornou uma sensação na Web, o Folhaspeak, estimulados pela mais recente aplicação: a denominação do contraventor (para citar um dos vários crimes de que é acusado) Carlinhos Cachoeira (Carlos Augusto Ramos) como “empresário do jogo”, visando dar-lhe respeitabilidade aos olhos dos leitores.
Como se sabe, a Lei de Paulo Preto (“Não se abandona um companheiro ferido na estrada”) vige em nosso meio.
Não é difícil aprender essa forma elegante de distorção jornalística da realidade – muito pelo contrário: basta entender o espírito do Folhaspeak: encontrar a denominação mais incriminadora ou degradante para qualquer fato relativo a um integrante do “outro lado” ou criar uma denominação atenuadora, ou mesmo enobrecedora, para qualquer fato constrangedor relativo a um integrante do “nosso lado”.
Imbuindo-se dessa intenção, as palavras fluirão normalmente, e você poderá assombrar seus amigos (e potenciais patrões) com inúmeros exemplos de Folhaspeak, quem sabe se tornando uma celebridade instantânea no Twitter com a tag #Folhaspeak.
Daremos apenas alguns exemplos, já que certamente você é capaz de criar dezenas deles em pouco tempo – se partir da intenção apropriada.
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PROTEGENDO O “NOSSO LADO”
1. O caso acima.
Um contraventor (isto é, um criminoso) => Um empresário de jogos (isto é, um homem de bem).
Folhaspeak em seu momento “Omo”: limpando reputações.
2. Se um governante foi incompetente na gestão do transporte público, o que resultou em vários “apagões” no sistema de metrôs, ele pode recorrer ao Folhaspeak e afirmar:
“Cresceram muito os trens, todos eles com ar-condicionado, então aumentou a demanda por energia.”
Incompetência administrativa (isto é, um erro gerencial grave) => “Crescimento” dos trens refrigerados + aumento de demanda por energia (isto é, um autoelogio do governante seguido da atribuição de culpa à população).
Folhaspeak delirante, elevando a linguagem tecnoburocrática a patamares inimagináveis.
3. Se o seu patrão for flamenguista, não escreva que “Deivid, membro de honra do Inacreditável Futebol Clube, perdeu o gol mais feito da história do futebol”. Escreva assim: “O artilheiro, muito bem colocado no lance, foi traído por um desvio inesperado da bola, e não conseguiu marcar o gol”.
Incompetência colossal (isto é, erro profissional gravíssimo) => Desvio inesperado da bola (isto é, um acaso infeliz).
Folhaspeak é linguagem multiuso.
4. Se você trabalha para um jornal que denuncia, julga e pune, sem dar direito de defesa, qualquer integrante do “outro lado”, com base na menor suspeita, e se alguém acusa um integrante do “nosso lado” com base em provas obtidas pela Justiça, Folhaspeak é a resposta ideal para essa situação constrangedora:
“Reza o bom jornalismo que a denúncia em si não é notícia. Só depois de apurada e ouvida (sic) as partes envolvidas.”
Ditado que vale para o “outro lado”: “Denúncia em si é condenação” x ” Ditado que vale para o “nosso lado”: “Denúncia em si não é notícia”.
Folhaspeak também é ditado (e contraditado).
5. Se um jornalista utiliza um bandido como fonte, durante cerca de 10 anos, obtendo dele gravações ilegais que lhe permitiram subir na hierarquia da empresa (“Os grandes furos do Policarpo fomos nós que demos, rapaz”) e que permitem ao bandido obter benefícios em suas atividades, entre eles a ocupação progressiva de espaços no Estado, e se esse jornalista mantém com esse bandido um acordo implícito de não revelar o que sabe sobre ele e de não investigar a extensão de suas atividades criminosas, e até de protegê-lo quando em situação desesperadora (http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/veja-livrou-cachoeira-da-prisao-em-2004-com-materia-falsa), mas uma operação da Polícia Federal revela a existência de mais de 200 ligações entre o jornalista e o bandido, em poucos meses, é hora de apelar para o Folhaspeak.
Divulga-se um trecho de uma das 200 ligações, em que o bandido tem recusado um favor extra nesse acordo, apresenta-se esse trecho como prova de honestidade profissional e afirma-se “Policarpo é fo**!”
X se fu*** => X é fo**.
Folhaspeak também é palavrão.
As principais matérias da carreira de um jornalista foram, na verdade, mérito de um bandido que realizou gravações ilegais? X é fo**.
Esse jornalista ascendeu na carreira por causa da preservação da fonte, sabidamente criminosa? X é fo**
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ATACANDO O “OUTRO LADO”
1. Se o ex-presidente Lula venceu o câncer, contra todas as expectativas do “nosso lado”, e a literatura médica registra que 80% dos pacientes ficam permanentemente curados da doença, obviamente você não escolherá esse dado para informar aos leitores. O título de sua matéria será: “Risco de volta da doença é de 20% em casos similares”.
Perpectiva de cura definitiva (isto é, um futuro tranquilo) => Risco de volta da doença (isto é, um futuro ameaçador).
http://www.fazenda.gov.br/resenhaeletronica/MostraMateria.asp?page=&cod=797887
Folhaspeak também é praga.
2. Se o principal expoente do “outro lado” recebe a notícia chocante de que está com câncer, luta cinco meses contra a doença e consegue superá-la, contando nesse tempo com o acompanhamento agouren… isto é, interessado da Grande Mídia, entra em ação o Folhaspeak e…:
Lutar contra uma doença mortal (isto é, uma reação humana, óbvia e saudável) => Obter espaço na mídia (isto é, uma intenção politicamente deplorável).
Folhaspeak é a linguagem ideal para o exercício da crueldade.
3. Se você foi contratado pelo patrão para defender a qualquer custo a Joia da Coroa da Oposição (São Paulo), e está escrevendo um post sobre a visita de FHC a Lula no Hospital Sírio Libanês, embeba seu texto em Folhaspeak:
“Logo estarão, de novo, em campos opostos. Lula a defender Fernando Haddad, o candidato que fabricou em São Paulo. FHC a advogar a causa de José Serra, o candidato que o tucanato escolheu para defender a cidadela de São Paulo da hegemonia do petismo.”
Candidato escolhido pelo Partido (isto é, o vencedor da disputa política interna) => Candidato fabricado por Lula (isto é, alguém sem legitimidade política).
Candidato que defende uma causa (isto é, uma motivação nobre) x Candidato que defende uma hegemonia (isto é, uma motivação condenável).
Partido que elegeu 5 governadores em 27 unidades da Federação e 547 prefeitos em mais de 5.500 prefeituras (isto é, a minoria dos governadores e prefeitos) => Partido que detém a hegemonia nos Estados e prefeituras (isto é, a maioria dos governadores e prefeitos).
http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2012/03/27/fhc-ve-lula-e-reencontra-parte-do-seu-passado/
Folhaspeak também serve para criar uma cachoeira de distorções jornalísticas.
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Acreditamos que os exemplos acima são suficientes para que se entenda a estratégia geral do uso do Folhaspeak.
1. Deixe-se imbuir do espírito do Folhaspeak: encontrar a denominação mais incriminadora ou degradante para qualquer fato relativo a um integrante do “outro lado” ou criar uma denominação atenuadora, ou mesmo enobrecedora, para qualquer fato constrangedor relativo a um integrante do “nosso lado”.
2. Identifique o ponto-chave do fato: aquele que permite um ataque a um integrante do “outro lado” ou que exige uma defesa de algum integrante do “nosso lado”.
3. Use a sua criatividade e a sua falta de escrúpulos jornalísticos para criar uma denominação, expressão, frase ou ditado que represente o espírito do Folhaspeak.
Mantenha sua consciência moral e seu amor à verdade inativos, durante a aplicação dessa estratégia.





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